Ciranda de nós

Eu somos nós. De gritos, de dores, prazeres, amores e vozes que vazam em nós. Não existe indivíduo. Tudo é coletivo.

Quinta-feira, Abril 24, 2008

O dia seguinte
(pequena novela em poucos capítulos)


Cap. 2
Na terceira vez, eu mal acertava a pronúncia do nome dele, tamanha a sua ausência na minha vida, e mesmo assim ele me deu rosas vermelhas, me fez juras de amor, me propôs casamento e ainda me comeu em cinco posições diferentes. Foi uma noite voraz, rápida e forte como a vida condensada nos resumos de clássicos para o vestibular. Ao final, ele me deixou na porta de casa e eu me lembro de, mesmo alcoolizada, ter reparado que o seu cabelo tinha então um tom mais claro, enquanto escorria pela janela do carro vermelho, que acelerava rua abaixo.

Cap. 3
Na quarta vez, ele tinha uma cara terrível. Abatido, inseguro, os olhos fundos e medrosos, um nariz grande fungando sem parar, parecia um adicto desesperado. Reclamava do trabalho, se queixava da esposa, jurava que ia se separar. Eu já começava a me sentir mal com aquilo tudo, me perguntando quando finalmente poderia confiar no que ouvia. As palavras de amor vinham agora com espinhos, como as rosas, e machucavam sem fazer sentido. Estava me cansando daquele papo de sempre, sempre igual, sempre estéril. O sexo também estava mais pobre, sem jogo, sem graça, sem tesão. Talvez fosse o abatimento, o trabalho, o casamento, a falta de perspectiva, a falta de assunto. Eu já nem sabia porque aceitava tudo aquilo, o que eu ganhava além de rosas e palavras frouxas. Pensei em me afastar.

Cap. 4
Mas, na quinta noite, eu encontrei um novo homem. Um novo amante. Veio com garra, com vontade, com a barba mal feita. Me apertou contra a parede e, roçando os pelos curtos da cara no meu corpo, me tomou com uma paixão dilacerada, me amou como um pagão. Era a sua versão mais cafajeste. De pele queimada, cheirando a liberdade, ele era na verdade um tirano e, no campo seguro que compunham as quatro paredes, me submetia a desejos obtusos. Quando eu já não podia continuar, arfando sem forças e me escondendo com pavor debaixo do lençol, ele foi embora, sem dizer palavra, sem um gesto qualquer. Derrotada, desfeita e amassada sobre a cama, eu o vi cruzar a porta a caminho da rua, levando no bolso quase tudo de mim. Estava apaixonada.




sp - peru - bolívia - peru - sp
(uma tentativa de sempre refazer a viagem)


cridão me resgatou de um sonho.

- olha os andes!

as montanhas surgiam pela janela do avião, cobertas de uma eternidade branca. montanhas que não respiram.


* * *


lima. aeroporto internacional. o dia está cinza - a cor não é patente paulistana - e cortado por granulados escuros. pássaros pretos sobre o cinza, imagem que a foto não capta.



[post em construção... a verdade é que dá preguiça de tudo... vou desistindo de um pouco a cada dia... um pouco de mim mesma a cada vez. e sendo a cada vez mais eu mesma. e a cada dia um pouco mais satisfeita]

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Terça-feira, Abril 08, 2008

O texto das tintas de Júlio Pomar

Quando soube que teria o lisboeta Júlio Pomar, 82, como vizinho na Pinacoteca do Estado de São Paulo, Joana Vasconcelos, 37, vibrou. Pomar era um mestre, uma referência para ela, disse ao presidente da instituição, Marcelo Araújo. “Contaminação”, instalação da artista que nasceu em Paris, mas há anos vive e trabalha com destaque em Portugal, é ante-sala para “Júlio Pomar – Um Artista Português”, mostra aberta no último sábado no museu de arte mais antigo da capital paulista.

Misto de panorama dos 60 anos de carreira do pintor e introdução da sua obra para o público jovem do Brasil, a exposição aberta no último dia 5 em São Paulo é uma porta de entrada para o universo de Pomar – ele, “um grande exemplo do percurso da arte portuguesa no século 20, com a presença da questão política, do salazarismo, da incursão pelo estrangeiro”, segundo Marcelo Araújo.

Estão lá seus primeiros passos, como neo-realista, fase em que recebeu influências dos muralistas mexicanos e até do brasileiro Cândido Portinari e que é bem representada pelo quadro “Ciclo do Arroz I”, onde se vêem, retratados com cores tristes, trabalhadores rurais do Ribatejo. Para o curador, o professor emérito da universidade de Boston Hellmuth Wohl, o neo-realismo atraiu o pintor menos por seu viés de denúncia social do que por se tratar de um movimento internacional, não provinciano.

Estão lá os anos de resistência ao salazarismo, regime de exceção que de 1933 e 1974 procurou isolar Portugal do mundo, dos “ventos da história”, como dizia o ditador António de Oliveira Salazar – e, neste contexto, um quadro dos Beatles datado de 1965 não parece ingênuo. Firme na oposição à ditadura fascista, Pomar chegou a ser preso por quatro meses em Lisboa, a capital do governo português, juntamente com o agora ex-primeiro-ministro e ex-presidente Mário Soares.

De acordo com Wohl, que acompanha Pomar há anos, a seleção de obras para a exposição seguiu a linha de uma mostra realizada em Lisboa há três anos, quando o curador fez uma retrospectiva dos 25 anos anteriores da produção do artista. Agora, porém, o catálogo é mais abrangente, passando por todas as fases do pintor. “Pomar trabalhou com várias linguagens do modernismo, e sua pintura foi adquirindo liberdade com o passar do tempo. O estilo hoje é mais amplo, mais pictórico.” O baixinho e barbudo Pomar, bem-humorado e receptivo na abertura da exposição, concordou. “Se eu não fosse aprender a liberdade ao longo da vida, seria muito triste. A liberdade é coisa que a gente deve tirar do próprio viver.”

Estão lá na Pinacoteca, também, o contato com o Brasil e, principalmente, o diálogo com a literatura, arte com a qual Pomar se afina. São ilustrações para obras como “Dom Quixote de La Mancha”, de Cervantes; “Emigrantes”, de Ferreira de Castro; e “Ode Marítima”, de Fernando Pessoa, além de retratos do poeta e de outros como Mário de Sá-Carneiro. “Não sou um grande leitor em termos de quantidade, mas tenho uma relação forte com a literatura”, disse Pomar. “A literatura é sempre muito importante na minha obra.”

A ligação com a literatura parece não se limitar à temática da sua produção, e abranger o próprio processo criativo. Em 1957, sob o impacto do espanhol Goya, uma de suas mais fortes influências, o artista deu início ao quadro “Cegos de Madrid” (acima). Levou quase dois anos para concluí-lo, demora que denota a sua relação com a pintura: como a de um escritor com seu texto, é centrada em si mesma, na própria relação, mais importante para ele do que o volume de quadros que possa criar.

A literatura reaparece, ainda, como filtro da relação com o Brasil. Questionado sobre os artistas brasileiros que admira, o primeiro nome disparado por Pomar, em seu discreto tom de voz, é o de Portinari. E as referências plásticas param por aí. Depois do pintor de Brodowski, só se ouvem nomes vinculados às letras: Jorge Amado, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Gilberto Freyre.

Freyre, aliás, é lembrado por “Casa Grande & Senzala”, livro que examina as contribuições culturais dos três grandes grupos sociais formadores do Brasil: os índios, os negros e os portugueses. O primeiro grupo está representado na mostra por “Kuarup II”, quadro da série decorrente dos dois meses passados por Pomar no Alto Xingu (MT), por ocasião das filmagens do filme “Kuarup”, de Ruy Guerra, uma adaptação para o cinema de – como não podia deixar de ser – uma obra literária: o romance homônimo de Antônio Callado.

Já o DNA português presente no Brasil é visto em “Mascarados de Pirenópolis VII”, quadro que retrata a Festa do Espírito Santo da cidade goiana, marcada pela encenação do conflito entre cristãos e mouros. Segundo Pomar, existe ainda uma festa semelhante nos Açores, mas sem o aspecto vistoso e teatral daquela de Goiás. Referência à dominação árabe na Península Ibérica antes dos ciclos das grandes navegações, a encenação do conflito entre cristãos e mouros atravessou o Atlântico no período colonial e resiste até hoje no interior do Brasil. “É uma tradição que renasceu aqui. Uma semente d’além mar.”
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