noturno
o vento desfolha os verdes entristecidos, sacode as almas acalmadas. a cidade cor de piche suspira. um choro baixo de ambulância fala por alguém que não quer dormir. uma mulher na janela sopra cinzas sobre a noite, e estrelas prateadas atravessam as ruas. das faixas de pedrestes, longas como cigarros de mulher, fumaças se projetam sobre os silêncios da calçada. a sujeira que rola mansa pelo asfalto, inocentada pelo tarde da hora, parece dizer que não adianta mais. não mais. a luz se apaga no apartamento do terceiro andar.
Coletivos
Uma mulher se benze diante da igreja
O cobrador assobia fogo e paixão
Riscos no vidro ensebado cortam
Trilhos de aço. Tralhas, cansaço
856 R 875 H 177 P 8171 CASA VERDE
O medo sacoleja no peito, os peitos
Um cheiro podre cobre o alumínio
Um homem pede dinheiro em troca de balas
Um relincho metálico uma freada uma
Estações de poesia Liberdade Paraíso
Livros lidos em bancos solavancos
Nas quase-vírgulas da cidade infinita
Nos cochilos e cotidianos de um dia
Nos beijos do casal que se despede
À porta do metrô, na avenida Paulista
As pessoas passam e reparam
Os fones despertam as consciências
As vozes se assomam dentro e fora
Azedas pretas amarelas densas coletivas