Ciranda de nós

Eu somos nós. De gritos, de dores, prazeres, amores e vozes que vazam em nós. Não existe indivíduo. Tudo é coletivo.

Segunda-feira, Maio 28, 2007

versos perdidos
Estrelas bóiam
numa xícara de café
A noite morreu
Num gole seco e até

Tento sorrir
Mas os dentes
Não se largam
Se esfregam
De quando em vez
E eu suspiro

É final de mês
Eu ouço um tiro
A pólvora queima
Numa imensa carreira
Ela vai explodir

Percorro com as mãos
As paredes do seu corpo
Não sei como entrar
(1999?)
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Sábado, Maio 19, 2007

devaneios de um anti-comunista
trecho da autobiografia "dener - o luxo", do estilista dener pamplona de abreu, morto em 1987, que será relançada pela cosac & naif em 2008 e foi notícia na folha desta sexta:


"Os tanques estão na rua, Dener

"Em princípios de 64 eu comecei a perceber que o país estava fervendo porque em todo lugar se falava de política. Muita gente vinha puxar conversa comigo porque sabia que eu vestia Maria Teresa Goulart. Eu achava uma graça danada de pensarem que eu jamais saberia as respostas para as perguntas que me faziam. Só comecei a ficar preocupado quando percebi que os comunistas estavam ficando fortes. Mas dois ou três uísques acabavam com qualquer preocupação.

Até que um dia eu sou acordado de madrugada, nem me lembro por quem. O mordomo chamou-me nervoso, pouco depois de eu ter adormecido. Percebi que só poderia ser revolução ou guerra, ou ninguém ousaria me chamar àquela hora. Era revolução. "Os tanques estão na rua, Dener. Parece que a revolução venceu.'

Eu fiquei no pânico mais desesperador. A primeira coisa de que me lembrei foi de uma fotografia de Pequim em que aparece todo mundo na praça vestido igualzinho. O que eu enxergava diante de mim era pior que o apocalipse. Alicia Scarpa, Elisinha Moreira Salles, todas de macacão azul, colocando rótulo em pacotes de goiabada em alguma fábrica de subúrbio. Jamais eu produziria macacões azuis para fabricação em massa. (...)

Sou tão inexperiente para esses momentos que não me passou pela cabeça esconder meus tapetes, minha prataria, meus objetos de arte. Não pensava no que eu tenho. Pensava no que eu não poderia mais fazer.

Comecei a imaginar como seria a deposição de Jango. Maria Teresa é mulher de categoria e certamente seria deposta com dignidade, fazendo alguma coisa que a marcasse. Mandei que o mordomo conseguisse ligar de qualquer maneira para o Palácio do Planalto. De repente, tinha-me vindo um pensamento negro: e se Maria Teresa, que deveria estar nervosa, não soubesse escolher o vestido certo para um momento desses. Afinal, em matéria de deposição, é raríssima uma segunda oportunidade."



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isso podia ser uma letra do eduardo dusek, autor dessa pérola:

Nostradamus

Naquela manhã
Eu acordei tarde, de bode
Com tudo que sei
Acendi uma vela
Abri a janela
E pasmei

Alguns edifícios explodiam
Pessoas corriam
Eu disse bom dia
E ignorei

Telefonei
Pr'um toque tenha qualquer
E não tinha
Ninguém respondeu
Eu disse: "Deus, Nostradamus
Forças do bem e da maldade
Vudoo, calamidade, juízo final
Então és tu?"

De repente na minha frente
A esquadria de alumínio caiu
Junto com vidro fumê
O que fazer? Tudo ruiu
Começou tudo a carcomer
Gritei, ninguém ouviu
E olha que eu ainda fiz psiu!

O dia ficou noite
O sol foi pro além
Eu preciso de alguém
Vou até a cozinha
Encontro Carlota, a cozinheira, morta
Diante do meu pé, Zé
Eu falei, eu gritei, eu implorei:
"Levanta e serve um café
Que o mundo acabou!"
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