Ciranda de nós

Eu somos nós. De gritos, de dores, prazeres, amores e vozes que vazam em nós. Não existe indivíduo. Tudo é coletivo.

Sábado, Março 31, 2007

querido diário
(pra que não haja confusão: esse é um texto de ordem política, do campo dos ideais...)
ontem, eu reencontrei um moço que quase me fez largar todo o pouco que eu tenho para virar uma pessoa sem bem. por causa dele - e aqui ele é só uma logomarca, ironia perfeita nesse caso, mas ainda assim por causa dele - eu pensei nos remédios de que precisaria na cólica, calculei a menstruação sem absorvente, a vida sem depilação e sem banheiro com privada. não tive coragem, e ele teve - e outro amigo também teve, querido e intangível magnata - e ontem por acaso eu encontrei esse homem, e não se chama de nada mais que não seja homem alguém que se alimentou apenas de ideologia durante cinco anos, e por acaso ele me deu uma carona.

assim assim a vida vai e volta, e assim a gente se reencontra depois de quatro ou cinco anos e por nada se sente imensamente feliz. eu admirei esse homem porque ele teve a coragem que eu não tinha, e que não tenho, talvez ainda, e percebo o que a vida fez de nós. e talvez venha a admirá-lo de verdade, se tiver a chance e a evidência, ou talvez não, mas já foi valioso me reencontrar, e por isso já rio sozinha. com todas as pombas cagando ao redor, o funcionário que roubou a empresa, a fulana que deu pra impulsionar a carreira, a sicrana que foi sacaneada, o beltrano que perdeu o emprego por causa de sicrana, e com todas as pombas ainda existem alvos que não foram atingidos. são pedaços de calçada onde se pode caminhar sozinha e até acompanhada, sem medo.


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e deus, maa ngala, criador de todas as coisas, uma hora se fartou da solidão. ele queria conversar. maa ngala, então, reuniu tudo o que havia criado e de cada coisa retirou um pedaço, para fazer com cada fragmento, e uma pitada de sopro divino, o homem - a quem lhe deu seu primeiro nome, maa. e entre deus e o homem se fez a palavra. divina, claro, para aquele, mas também sacra para este, a palavra trazia consigo o ritmo, o ritmo que todo movimento possui, que toda energia em movimento detém, na sua contínua criação e recriação de todas as coisas, o tempo todo, em toda parte. o mundo é feito de palavra.
(salve a linda sabedoria africana)

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joão traiu edna,
que traiu bira,
que traiu silvio,
que traiu roberta,
que traiu chico,
que era um cachorro
e que não tinha
nada com isso...
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Segunda-feira, Março 26, 2007

assim assim

os pássaros cantam
uma canção sem vogais
dura assim
teimosa assim
como o verbo que
não quer se pôr

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mais um verão partiu
e o sol segue seco
o som roubado da web
me abafa o passaredo

.

o outono tem gosto de dezembro
essas linhas não têm métrica
eu posso rimar lamento e vento
mas vai ser só uma rima
não vai ser o salvamento

.

menos um sonho
um suspiro a menos
menos um sol
menos anzol
menos bemol

.

mercadejar
preguicejar
amolengar
cochicho
relancear
anoitear
ensoldecer
palavras boas
do meu brasil




Na Zacumbira
(Hermeto Pascoal)

Na zacumbira tirajica da tumbara
chou carumba traqui tréque
Zipi zape profigum

/Briquixixá batunga lá
Ziriquibácatungasú
Zabumba baba béba junte
Traque trêmpe traze tum (1ª vez): //volta ao começo

/Aracubica maça dura
Zabiaraca na chatica
Tinga rabi biri bófe
Manjibum cobrocoió (2ª vez) ://



Subindo a Seba
(Hermeto Pascoal)

Télébitraque goziropéra
Mugunçurébi jovetizango
Caximboléia drafirombite
Aurinajóca tiéporengo
Vazelexipo trembebizungo
Suvinatéba lozênguezapa
Xixongrumpéba mulijatruvo
Mélébrajênca urateaba://
Bronqueiratóbe lacréiadrule
Fózitébenca chégribóroba
Pupébatente Gragrégrigrégue.
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Sábado, Março 24, 2007

Despedida
Era um espetáculo deprimente aquela mesa enorme, cheia de cadeiras vazias, reservadas para ninguém. Nenhum amigo tinha ido se despedir dele, que no dia seguinte pegaria um avião rumo a três anos de ausência.

Nenhum amigo, exceto eu. Ele se sentou ao meu lado, disse que me amava e falou mais uma porção de coisas sem parar, cuspindo entre uma frase e outra, como um cachorro babão. Ele falava e cuspia e olhava através de mim, em direção à porta da pizzaria, por onde esperava que alguém, qualquer pessoa, qualquer uma, chegasse.

- E o Rodrigo, que era muito seu amigo, você chegou a ver nessa viagem?
- Eu vi o Rodrigo duas vezes nesses vinte e cinco dias. Era pra ele estar aqui. Eu chamei ele, ele devia ter vindo, mas... mas ele não veio... eu chamei umas quinze pessoas, ninguém veio, mas, enfim, eu viajo amanhã...

Ele se atrapalhou todo com uma resposta que eu não pedi. Mas a mágoa estava na ponta da língua, amargando a boca e o espírito. Do outro lado da mesa, uma tia com a cara toda esticada me sorria bêbada, enquanto segurava uma taça de um vinho tinto caro, e a mãe e outra tia conversavam como amigas adolescentes, aos cochichos, bebendo o mesmo tinto.

Ele chamava a mãe o tempo todo, olha, mãe, pra mostrar qualquer coisa, mãe, você é linda, pra fazer um agrado, mãe, eu te amo, pra se humilhar pedindo um carinho que ela nunca deu porque não podia ou não sabia amar. E então eles brigaram. Aquele livro, aquele que ele não folheava fazia mais de dois anos, não podia ir pro lixo quando ela mudasse de casa. O livro custava cento e cinqüenta reais, não podia, não podia. Ela não podia fazer isso com ele. O pai iria salvá-lo. Ah, sim, o pai, que não estava ali, o pai, que tinha uma fábrica, o pai, que era amigo do Paulo Skaf, aquele importante empresário do mundo têxtil que tem uma assessoria de imprensa insistente e sempre consegue ser citado nos jornais. Ah, sim, o pai era tão importante...

E então toca o celular. Uma amiga se desculpa porque não pode ir, mas promete levá-lo ao aeroporto. Ele desliga satisfeito. Olha para mim, depois olha para as tias e diz, sorrindo, é uma Matarazzo. Sobrinha-bisneta-da-prima-do-conde-Matarazzo. Uma das tias se interessa e pergunta se a menina é prima de não sei qual Matarazzo. Sim, sim, claro, ela é muito chique. Novos provincianos. E ele elogia o cartão gold plus da tia esticada, que sorri com os dentes tintos.

E depois volta a me dar atenção. Mas já não temos muito o que conversar. Estamos em mundos separados. Ele, com a sua roupa de marca e seus importantes supostos amigos e eu de sandália de couro. Que vergonha. Mas ele tenta falar, e enquanto tenta ele cospe e olha através de mim, em direção à porta da pizzaria, por onde espera que alguém, qualquer pessoa, qualquer uma que eleve a audiência da mesa, chegue.

E, enfim, chega o meu alívio. Ela é simples, ela não tem jóias, é apenas uma pessoa que veio se despedir. Mas a simplicidade é aparente, ele tenta mostrar, dizendo que ela é viajada, que conhece a Europa toda. Ah, tá... Eles conversam, trocam contatos e ela elogia quando ele levanta, a pedido da mãe, e ajuda a tia esticada e bêbada a chegar ao banheiro. Eu lembro de quando pegamos ônibus e ele quis me impedir de oferecer o banco a um velhinho. Na Europa, ninguém faz isso, foi a justificativa. Pois deveriam fazer, respondi. E agora eu fico quieta. Ela parece a única pessoa dali que gosta dele com sinceridade. Não vou estragar isso. Sim, porque eu, até eu tenho minhas dúvidas sobre o que sinto. Me pergunto se não me mantenho amiga dele por pena. Não quero abandoná-lo.

Logo depois chega outra amiga, e ela é neta de austríacos, veja só, ele faz questão de dizer. A menina corrige, ela é bisneta, na verdade. Tudo bem. É um sangue europeu. A menina chega para ficar meia hora, ela não podia estar ali, mas ele a obrigou. Se ela não aparecesse, ele nunca mais falaria com ela. Isso foi um convite ou uma chantagem, eu perguntei, já sem paciência. E ele se justifica e se justifica. Claro, sempre existem as justificativas.

E enquanto ele dá atenção pra essas pessoas que mal o conhecem, a mãe me conta como ficou aliviada quando ele foi passar uns dias na casa do pai.

- Ele cansa.

Parece uma brincadeira, mas ela continua a falar. Ele estressa, ele cansa, ele fala demais, é ansioso demais, perturba demais. E ri quando o comparam a um cachorro. Adora a analogia. A mãe não vê a hora de se livrar do filho. E não é a única. A amiga austríaca que acabou de chegar vai embora. A outra, a simples, sai logo em seguida. Nós, que restamos, pagamos a conta e nos despedimos. É deprimente o espetáculo daquela mesa enorme, ladeada de pessoas vazias, vazias como ninguém. Eu sinto pena.
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Sexta-feira, Março 16, 2007

nius
a prefeitura de são paulo anuncia, nesta sexta, que o colégio são josé será tombado. tradicionalíssima instituição de ensino paulistana, o são josé fechou as portas no fim do ano passado por falta de recursos. "situada na rua da glória, no bairro da liberdade, a construção possui estilo neoclássico e foi projetada pelo arquiteto ramos de azevedo, autor também dos projetos do teatro e mercado municipal", diz a nota da prefeitura.

mas esse não é um fato isolado. outro colégio de tradição, o arquidiocesano demitiu um quinto dos seus professores recentemente. a essas informações, entregues por um profissional da área, devem se somar outras, que formam, com essa, um quadro preocupante. com poder econômico reduzido, a classe média está migrando - por necessidade e não por ideologia ou qualquer tipo de vontade própria - para as carteiras do combalido ensino público.

a uma pauperização material de parte da população, acrescenta-se um empobrecimento intelectual. porque, infelizmente, a educação do estado está longe de ser a ideal.


notícias de um futuro possível
"a segunda morte de fidel
raúl castro anuncia a abertura da economia cubana"

"bush é enforcado no iraque"
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Segunda-feira, Março 05, 2007

no vazio das horas cansadas
e então veio o cheiro da gemada, o amarelo áspero, o crocante do açúcar, uma saudade de uma tarde qualquer de 1994, da adolescência sem compromissos, sem planos nem perguntas inflamáveis. saudade de uma época em que não sonhava com pessoas cor de gorgonzola nem com viagens perdidas. e agora tudo o que queria eram os círculos negros de um vinil girando na vitrola, a velha cachorra maluca satisfeita com um afago, os antigos pequenos sonhos esmagados pelos anos, os programas inúteis da televisão vespertina.

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e agora temos cactos à janela. fragmentos de um sonho que eu procuro aos poucos construir. sim, porque é preciso um sonho. deixei todos do lado de fora, quando entrei aqui. passo o olhar além do vidro, tento achar algo na rua, mas o que vejo é refração. árvores azuis, pássaros negros, um pouco de você, um pouco de todos que amei, um pouco de mim - recortes da minha infância, rasgada aos vinte e seis anos.

e agora temos um cachorro. mais um pedaço do sonho que tentamos erguer, com cabos de aço e nervos de fé. e temos café, porque sonhos precisam de estímulo. rolo no chão de madeira, como pra checar que dali não dá mesmo pra passar. a crise dá um tempo. vai embora por alguns dias. mas depois volta, como a dizer que não vai me deixar em paz nunca mais. é uma filhadaputa.

um dos cactos está coberto de flores. a imagem é tão fantástica que me absorve, me suga os sentidos, me aguça o sono. vou voltar a dormir.

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a tristeza chega como um cachorro, cheirando e rodando em volta da carne. ela fareja brechas por onde entrar.

não sabe ainda, no seu fungar de fome, que o meu peito magoado é terra fértil pra grandes amores. e que assim seja.

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uma espada. eu sonho com uma espada bem longa, que me perfure o corpo todo, penetrando pela cabeça até virar raiz, com a seiva vermelha de fora, numa terra minha. algum freudiano pervertido pode vir com uma grande e besta teoria sobre isso...

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parafraseando debochadamente meu outro: quanto mais se afunda, mais sozinho se fica.

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e então veio o cheiro da gemada, o amarelo áspero da gemada, o crocante do açúcar da gemada...
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