Ciranda de nós

Eu somos nós. De gritos, de dores, prazeres, amores e vozes que vazam em nós. Não existe indivíduo. Tudo é coletivo.

Quarta-feira, Dezembro 31, 2008

Cartazes da Liberdade

Eram dez da manhã quando Gilson Benício, 54, forrava de cartazes o viaduto Cidade de Osaka. "O diabo sabe como enganar os homens mais tolos do que ele", dizia um, colado com fita adesiva no chão. Cobrador de ônibus aposentado, Gilson assumiu a identidade de Samuel Salles para espalhar seus pensamentos pela cidade. "Um padre estuda bastante para celebrar a missa. Um pensador não precisa de estudo para celebrar a vida." Desde janeiro de 2008, se instalou na Liberdade. Antes, o pensador espalhava suas idéias pelo Viaduto Beneficiência Portuguesa e pela avenida Paulista, entre outros pontos de onde a polícia o arrancou.

Para a rua, Gilson leva 48 cartazes. Mas tem outros cem em casa, anotados num caderno. São textos que ele considera impublicáveis, como um sobre a infidelidade feminina – "A mulher que trai não é pior que as outras. Ela é apenas mais fogosa, mais generosa e mais corajosa".

Cobrador de ônibus aposentado, Gilson diz que ganha nas ruas, por dia, algo entre 80 e 100 reais, que complementa o mirrado valor recebido do INSS. "Quando faz sol", ressalva.

A estratégia não é nova. Gilson já morou na rua. Foi em 1984, quando passou seis meses sem casa, escrevendo para os que cruzavam o seu caminho. Sabedor de marketing, Gilson construiu sua assinatura artística unindo um nome bíblico, Samuel, a um sobrenome que com ele cria eufonia. "É como Malu Mader", explica.

"O povo elege sempre o candidato certo. Ele só se torna errado depois de eleito", ensina em outro cartaz. Parte da sabedoria ele tragou dos livros. "Ana Karenina", "O Conde de Monte Cristo", "A Dama das Camélias" e "Guerra e Paz" ainda estão na estante da memória. Hoje, só Neruda, Vinícius e os salmos. "Os salmos me emocionam até as lágrimas."

Foi com os versos, e com ninguém mais, que Gilson se casou. "Nunca criei amor por mulher nenhuma. Mulher, para mim, é só divertimento." Ou consigo mesmo. "A sua alma é esposa do seu corpo."


CARTAZES

"O mal inventa doenças com o propósito do bem curar. Ou seja, para que o bem possa ter condições de manifestar a sua glória. Ora! Se o mal fosse inimigo do bem, o mal evitaria inventar doenças, porque evitando as doenças o mal impediria que a glória do bem se manifestasse. Sendo assim, minha lógica filosófica me diz que o bem e o mal vem do mesmo lugar. É que a verdade pura está ‘acima do bem e do mal’."
(A la Quincas Borba)

"É bom fazer um sacrifício por quem amamos. Mas tome cuidado. Não sacrifique um bem precioso que nunca mais poderá ser reconquistado."
(Pragmático...)

"Amar a Deus desprezando os homens é o mesmo que consultar o médico e rejeitar o remédio"

"Todos os seres viventes
São bilhões de indecentes
Vivem todos descontentes
São um montão de dementes"


"A mulher que trai não é pior que as outras. Ela é apenas mais fogosa, mais generosa e mais corajosa" (dos "impublicáveis", assim chamados por auto-censura)

"Por ser esotérico, eu aceito todos os deuses, e todas as doutrinas. Apesar de algumas serem obscuras, draconianas e ininteligíveis. Por isso, para mim, tudo é cogitação."
(hã?)

"A tua consciência é uma célula de Deus em ti."

"Para quem busca a verdade, o coração é um péssimo conselheiro."

"Minha fé é cega, mas minha consciência enxerga muito bem."

"O excesso de vaidade e ambição transforma qualquer preguiçoso em ladrão."

"Por acreditar que serão sempre belas e atraentes, algumas moças acabam se tornando solteironas neuróticas."


ASPAS

"Deus supremo, que salva TODO mundo."

"Ninguém tem culpa de nada. Ninguém tem culpa de ser mal. É a alma que é jovem."
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Terça-feira, Outubro 07, 2008

há qualquer coisa que dói quando respiro.
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Sábado, Outubro 04, 2008

leituras

"Conversam um pouco. O colega abre um livro, a Bíblia, por acaso dá com esta passagem: 'Bendito seja o senhor Deus meu, que adestra as minhas mãos para a batalha e os meus dedos para a guerra'.

- É terrível esta Bíblia, comenta o outro.

E ambos saem."


(...)

"Acho nele dois pequenos defeitos: é jornalista e é político. O primeiro é simplesmente um meio de vida, desculpa-se."


(Diário Íntimo, Lima Barreto, 1904, 1905)



joana
era a menina que, na foto, suspendia as pontas da saia ao lado do corpo. suspendia a saia e sorria bobamente, como se tentasse conquistar a simpatia do fotógrafo. as outras garotas, a uma certa distância dela, não posavam. com os braços soltos junto ao corpo, riam um riso espontâneo, franco. joana ria sem sinceridade. ria com algum esforço, suspendendo as pontas da saia e tentando seduzir o operador da máquina, procurando convencer o mundo e a si mesma de que podia fazer o papel que se esperava dela. de que podia ser amada.


ser humano
só em ciudad real, a inquisição, em 1486, processou mais de três mil pessoas; em sevilha, desde este ano até o de 1489, calcula-se em três mil sentenciados, dos quais perto de quatrocentos foram queimados vivos. herculano. história do estabelecimento da inquisição, página 71 (2a edição).

no ano em que nasceu machado de assis, 1839, o rio de janeiro tinha duzentos mil habitantes. cem mil eram escravos (informação da folha online).
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Sexta-feira, Agosto 22, 2008

Onomástica

I____Antônio do Patrocínio Oliveira_________________1834
____Maria da Conceição Camargo Oliveira____________1837
____José Sessentino Camargo Oliveira______________1856
____Maria Aurélia Camargo Oliveira_________________1858
____Teófilo Horácio Camargo Oliveira_______________1861
II___Teresa Cristina Sousa de Oliveira_______________1859
____Maria Aurélia Sousa de Oliveira________________1871
____Rodrigo Horácio Sousa de Oliveira______________1874
____Rodolfo Joaquim Sousa de Oliveira______________1877
____Rafael Antônio Sousa de Oliveira_______________1879
____Carolina Aurélia Sousa de Oliveira______________1881
III___Marcos Vinícius da Silva_____________________1880
____Graziela Maria de Oliveira e Silva_______________1903
____José Sessentino de Oliveira e Silva______________1907
____Sônia Aparecida de Oliveira e Silva______________1910
IV__Francisco Baltazar de Almeida Berh______________1918
____Francisca Aurélia Silva Berh___________________1936
____Ana Maria Silva Berh________________________1939
____José Horácio Silva Berh______________________1943
____Maria Almeirinda Silva Berh___________________1945
____Osias Francisco Silva Berh____________________1949
V___Almeirinda Maria Cardoso Berh________________1947
____Olavo Cardoso Berh________________________1971
____Márcia Maria Cardoso Berh___________________1974
VI__Fernando Alves____________________________1970
____Virgínia Berh Alves_________________________2001
____Maria Aurélia Berh Alves_____________________2004
____Encarnação Berh Alves______________________2008



é...
na verdade, somos todos minorias...

infância perdida
o almanaque de agosto do chico bento - o primeiro que eu compro da editora panini e também o primeiro em muito tempo - começa com um rico apanágio dos dias atuais. na página que antecede a seleta de histórias do gibi, uma pequena introdução pede desculpas pelas cenas politicamente incorretas que vão se desenrolar aos olhos da nova - e pobre - geração. triste ironia, as cenas se passam na aventura "a infância perdida da professora".

diz a introdução: "a historinha 'a infância perdida...' foi criada em outros tempos, quando certos comportamentos não eram julgados com tanta seriedade! por isso, o nhô lau aparece dando tiros de sal no chico, que, por sua vez, 'rouba' goiabas! claro que, hoje, o nhô lau não faz mais isso, embora o chico continue 'pegando' goiabas sem autorização..."

eu me assusto, releio, tento entender e concluo que é a desgraça dos novos tempos, não tem jeito, o odor dessa época em que confusamente convivem um neoliberalismo-que-sai-na-caras e um neopaternalismo estatal que cria leis secas e estampa com câncer maços de cigarro - talvez como forma de compensar sua impotência na economia, o estado busque justamente deixar sua marca no campo da moral. e me conformo com o eufemismo tucaneiro do final das aspas, aceitando-o como desfecho perfeito para um momento tão deprimente... mas não era o fim. não ainda. ao lado, na contra-capa, um outro susto arremata a cena. um anúncio indecentemente promete sabor em biscoitos sem gordura trans.

eu já não sei se ainda devo ter filhos.
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Domingo, Julho 20, 2008

suspiro
(...)
eu não pertenço a mim mesma.
(...)


blás
a sombra na parede sugeria um outro corpo. ela se aproximou para ver melhor.
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Domingo, Junho 08, 2008


as luzes mornas do viaduto do chá
os búzios, o coração
são paulo é um sertão
refresco com pregos à venda
na calçada mais suja da sua casa
açúcar com limão
a fome nos olhos
na esquina, a separação
a vida que é assim a pior das doenças
a que mais dói. e que não tem cura.


bulhufas
falo comigo mesma em códigos mortos, metáforas que não significam. apenas pus e cera.

por que as pessoas têm de se olhar o tempo todo nas ruas? nas calçadas, nas catracas de ônibus, nas janelas, nas faixas de pedestre? por que eu tenho que olhar para todo mundo?

sem edição, sem edição, meu pensamento é um troço à deriva...

não sei não sofrer. a vida só me sangra, só se derrama. a vida menstrua, a vida dá cólicas. escorre feito chama.

vamos falar de coisas boas... de como o andré, sem dinheiro para viajar, passou as férias em casa, com a filha pequena, que até então mal sabia o seu nome. de como alguém fez a gentileza de segurar a porta para você passar. de como alguém lembrou de te telefonar no meio de uma tarde qualquer.

sempre sempre sempre deslocada. um corpo que não obedece à cabeça, uma mente que não relaxa o corpo. um corpo duro, uma alma rija. e um coração mole entre tantas mãos.

escrevo escrevo escrevo como quem espreme espreme espreme um caroço com os dedos.

luto contra o luto cotidiano que transforma em cinza as horas antes mesmo de escurecer.

navios que se queimam, rotas que se trançam, pernas que tropeçam.

alguma coisa quer se precipitar.

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Quinta-feira, Abril 24, 2008

sp - peru - bolívia - peru - sp
(uma tentativa de sempre refazer a viagem)


cridão me resgatou de um sonho.

- olha os andes!

as montanhas surgiam pela janela do avião, cobertas de uma eternidade branca. montanhas que não respiram.


* * *


lima. aeroporto internacional. o dia está cinza - a cor não é patente paulistana - e cortado por granulados escuros. pássaros pretos sobre o cinza, imagem que a foto não capta.

policiais sérios nos mandam afastar da entrada espelhada do aeroporto. para trás, para trás. nos distanciamos uns quarenta metros, deixando vazias duas pistas de carro à nossa frente. eu, cridão, alguns gringos e dezenas de peruanos com suas feições ancestrais esperamos, sem entender lhufas.

"acho que vem alguém importante aí. algum ladrão", arrisca cridão.

"no compreendo", diz um peruano simpático, de placa na mão (espera alguém), que me conta que a cidade de lima está a meia hora dali.

e nós parados, esperando.

e nada acontece.

os pássaros tomam o céu outra vez, se espalhando pelo cinza como búzios correndo sobre uma esteira de palha. uma menina chupa pirulito, encantada com a movimentação coletiva. nada acontece. todos esperam.

e o guarda faz sinal para voltarmos à entrada do aeroporto.

"como se dice bien-venido en português?", me pergunta o peruano simpático.


* * *


voltamos à entrada, indo ao encontro de um grupo escolar. um menino gordinho, sorridente, fala comigo em inglês. deve me achar americana. "what's your nice?", arrisca, misturando as palavras.

"mira, mira!", grita outro, lhe chamando a atenção.

as crianças peruanas são graciosas como todas as crianças.


* * *

a caneta não quer escrever. o corpo ainda segue o ritmo de casa, o coração se divide entre encanto e saudade, felicidade e medo. é como se a alegria, para ser grande, devesse ser compartilhada com alguém que se ama. por isso, escrevo. mando cartas e escrevo outras para ninguém. aqui. este não é o meu país. é lindo, mas não consigo me entregar a ele por completo. eu desconfio e sinto saudades. eu desconfio do lugar, e sinto saudades. cada casal de turista me lembra que não estou inteira. e me dá vontade de chorar. eu conto os dias - não devia ser assim. devia vê-los passar sem me dar conta. aprendo a viver com alteridades. sei que é melhor assim. é educativo para nós. mas não é fácil.


***


este é um belo país. bagunçado, colorido, alegre e musical. e orgulhoso do seu passado - pelo menos, em parte. o veto à cultura peruana, no aeroporto, onde o administrador não deixa que se toquem dvds nacionais, ou as propagandas dominadas por gente branca. não condizem com os índios de cusco e sua evocação aos antepassados incas. não condizem com as tranças longas e finas que atravessam as costas fofas das índias e se encontram acima da cintura. não condizem com as milhares de pedras espalhadas em ruínas perdidas por todo o peru - ruínas e estradas que acendem à noite, com a lua. ruínas que os espanhóis não conseguiram destruir por completo.


***


saqsaywaman
sacsayhuaman

serpente - terra, mundo mortos, sabedoria
puma - plano humano, força, vida
condor - céu, mundo espíritos, a paz

q'enco: sacrifício de lhamas. o macho mais velho da sua geração, o mais importante, era sangrado e tinha o coração enterrado nalgum canto ao redor do templo. na parte de cima, se observavam os astros e se fazia o teste de virgindade nas mulheres (outros dizem que não era nada disso).

à frente, há um enorme monolito, que marcava hora (dez da manhã, três da tarde) e, ao meio-dia, indicava a estação do ano pela sombra que produzia.

sacrifício: à direita do altar, há uma janela, onde se colocavam os objetos usados na cerimônia. à esquerda, há um espaço para oferendas, que era iluminado pelo sol nascente, que atravessava a fenda aberta para a sua passagem.

instituição das virgens do sol: meninas bonitas, sem defeitos físicos, eram destacadas e levadas para a casa das virgens do sol, de onde podiam retornar para as suas comunidades, alguns anos depois (por volta de uma determinada idade). quem ficasse seguiria uma vida religiosa, permanecendo virgem (do contrário, seria castigada com a morte). uma vida dedicada ao sol. ou seria uma das mulheres do inca ou de um de seus filhos.


***


carol cridão

750 830
730 170
1.480 1.000


***


[post em construção...]

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Terça-feira, Abril 08, 2008

O texto das tintas de Júlio Pomar

Quando soube que teria o lisboeta Júlio Pomar, 82, como vizinho na Pinacoteca do Estado de São Paulo, Joana Vasconcelos, 37, vibrou. Pomar era um mestre, uma referência para ela, disse ao presidente da instituição, Marcelo Araújo. “Contaminação”, instalação da artista que nasceu em Paris, mas há anos vive e trabalha com destaque em Portugal, é ante-sala para “Júlio Pomar – Um Artista Português”, mostra aberta no último sábado no museu de arte mais antigo da capital paulista.

Misto de panorama dos 60 anos de carreira do pintor e introdução da sua obra para o público jovem do Brasil, a exposição aberta no último dia 5 em São Paulo é uma porta de entrada para o universo de Pomar – ele, “um grande exemplo do percurso da arte portuguesa no século 20, com a presença da questão política, do salazarismo, da incursão pelo estrangeiro”, segundo Marcelo Araújo.

Estão lá seus primeiros passos, como neo-realista, fase em que recebeu influências dos muralistas mexicanos e até do brasileiro Cândido Portinari e que é bem representada pelo quadro “Ciclo do Arroz I”, onde se vêem, retratados com cores tristes, trabalhadores rurais do Ribatejo. Para o curador, o professor emérito da universidade de Boston Hellmuth Wohl, o neo-realismo atraiu o pintor menos por seu viés de denúncia social do que por se tratar de um movimento internacional, não provinciano.

Estão lá os anos de resistência ao salazarismo, regime de exceção que de 1933 e 1974 procurou isolar Portugal do mundo, dos “ventos da história”, como dizia o ditador António de Oliveira Salazar – e, neste contexto, um quadro dos Beatles datado de 1965 não parece ingênuo. Firme na oposição à ditadura fascista, Pomar chegou a ser preso por quatro meses em Lisboa, a capital do governo português, juntamente com o agora ex-primeiro-ministro e ex-presidente Mário Soares.

De acordo com Wohl, que acompanha Pomar há anos, a seleção de obras para a exposição seguiu a linha de uma mostra realizada em Lisboa há três anos, quando o curador fez uma retrospectiva dos 25 anos anteriores da produção do artista. Agora, porém, o catálogo é mais abrangente, passando por todas as fases do pintor. “Pomar trabalhou com várias linguagens do modernismo, e sua pintura foi adquirindo liberdade com o passar do tempo. O estilo hoje é mais amplo, mais pictórico.” O baixinho e barbudo Pomar, bem-humorado e receptivo na abertura da exposição, concordou. “Se eu não fosse aprender a liberdade ao longo da vida, seria muito triste. A liberdade é coisa que a gente deve tirar do próprio viver.”

Estão lá na Pinacoteca, também, o contato com o Brasil e, principalmente, o diálogo com a literatura, arte com a qual Pomar se afina. São ilustrações para obras como “Dom Quixote de La Mancha”, de Cervantes; “Emigrantes”, de Ferreira de Castro; e “Ode Marítima”, de Fernando Pessoa, além de retratos do poeta e de outros como Mário de Sá-Carneiro. “Não sou um grande leitor em termos de quantidade, mas tenho uma relação forte com a literatura”, disse Pomar. “A literatura é sempre muito importante na minha obra.”

A ligação com a literatura parece não se limitar à temática da sua produção, e abranger o próprio processo criativo. Em 1957, sob o impacto do espanhol Goya, uma de suas mais fortes influências, o artista deu início ao quadro “Cegos de Madrid” (acima). Levou quase dois anos para concluí-lo, demora que denota a sua relação com a pintura: como a de um escritor com seu texto, é centrada em si mesma, na própria relação, mais importante para ele do que o volume de quadros que possa criar.

A literatura reaparece, ainda, como filtro da relação com o Brasil. Questionado sobre os artistas brasileiros que admira, o primeiro nome disparado por Pomar, em seu discreto tom de voz, é o de Portinari. E as referências plásticas param por aí. Depois do pintor de Brodowski, só se ouvem nomes vinculados às letras: Jorge Amado, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Gilberto Freyre.

Freyre, aliás, é lembrado por “Casa Grande & Senzala”, livro que examina as contribuições culturais dos três grandes grupos sociais formadores do Brasil: os índios, os negros e os portugueses. O primeiro grupo está representado na mostra por “Kuarup II”, quadro da série decorrente dos dois meses passados por Pomar no Alto Xingu (MT), por ocasião das filmagens do filme “Kuarup”, de Ruy Guerra, uma adaptação para o cinema de – como não podia deixar de ser – uma obra literária: o romance homônimo de Antônio Callado.

Já o DNA português presente no Brasil é visto em “Mascarados de Pirenópolis VII”, quadro que retrata a Festa do Espírito Santo da cidade goiana, marcada pela encenação do conflito entre cristãos e mouros. Segundo Pomar, existe ainda uma festa semelhante nos Açores, mas sem o aspecto vistoso e teatral daquela de Goiás. Referência à dominação árabe na Península Ibérica antes dos ciclos das grandes navegações, a encenação do conflito entre cristãos e mouros atravessou o Atlântico no período colonial e resiste até hoje no interior do Brasil. “É uma tradição que renasceu aqui. Uma semente d’além mar.”
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Quinta-feira, Março 27, 2008

pedaços

2. O passarinho que você soltou não chegou ao céu. Ficou preso nos fios de alta-tensão da cidade, tentando se safar das linhas que o seguravam, batendo as asas e piando impropérios. Ele passou a vida toda numa gaiola, Antônio, não sabe voar. O mundo dele é pequeno daquele jeito, grade aqui, grade ali, um pau pra trepar e um pouco d’água pra beber. Ele ficou preso nos fios, piando impropérios...


3. Cada vez, sentia mais desprezo por qualquer animal que pudesse usar óculos. Se não fosse por alguns poucos representantes, ela condenaria a espécie toda à extinção. O ser humano era um vírus tão perigoso que se multiplicava sem controle e às vezes chegava a contaminar outros animais. Ulisses era um exemplo claro disso. De tanto conviver com o pai, havia contraído os seus vícios: a sua carranquice, o seu egoísmo. Ela chegava em casa e o bicho nem se levantava para recebê-la. Era tão interesseiro que só abanaria o rabo quando ganhasse um pedaço bem gorduroso de carne. Ia ter de esperar. O humor dela não andava entre os melhores.


4. É tempo de rasgar o peito. E falar com o coração.


6. Chegou sem fazer ruído, pisando a linha com seus sapatos cor de xérox. Acendeu um cigarro e baforou uma fumaça de chaminé, em sua elegante pose de detetive inglês, uma mão no bolso da calça, atravessada diante do casaco. Era um personagem de desenho animado.


7. O prédio amarelo, pintado de idade


8. É incrível como as pessoas adquirem graça à medida em que avançam em suas carreiras. A piada de um gerente não provoca tantas risadas quanto o gracejo de um diretor. O mundo corporativo é realmente engraçado.


10. É de posse dessas ferramentas que o cientista procura refazer, no laboratório do seu texto, a experiência do real.


11. Quando as suas asas bateram em mim, pensei que eu fosse voar. Vi longe o elevador transparente que subia por um prédio holográfico. O sol atravessava a estrutura, irradiando uma melancolia laranja pela cidade azul. Você falava em amor, com penas na boca. Tentei te tocar. Era decalque.


13. eu voltei a mim
sem sair do lugar

você já chegou
mas eu ainda espero
você voltar

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Quarta-feira, Dezembro 12, 2007

noturno

o vento desfolha os verdes entristecidos, sacode as almas acalmadas. a cidade cor de piche suspira. um choro baixo de ambulância fala por alguém que não quer dormir. uma mulher na janela sopra cinzas sobre a noite, e estrelas prateadas atravessam as ruas. das faixas de pedrestes, longas como cigarros de mulher, fumaças se projetam sobre os silêncios da calçada. a sujeira que rola mansa pelo asfalto, inocentada pelo tarde da hora, parece dizer que não adianta mais. não mais. a luz se apaga no apartamento do terceiro andar.



Coletivos

Uma mulher se benze diante da igreja
O cobrador assobia fogo e paixão
Riscos no vidro ensebado cortam
Trilhos de aço. Tralhas, cansaço
856 R 875 H 177 P 8171 CASA VERDE
O medo sacoleja no peito, os peitos
Um cheiro podre cobre o alumínio
Um homem pede dinheiro em troca de balas
Um relincho metálico uma freada uma
Estações de poesia Liberdade Paraíso
Livros lidos em bancos solavancos
Nas quase-vírgulas da cidade infinita
Nos cochilos e cotidianos de um dia
Nos beijos do casal que se despede
À porta do metrô, na avenida Paulista
As pessoas passam e reparam
Os fones despertam as consciências
As vozes se assomam dentro e fora
Azedas pretas amarelas densas coletivas


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Segunda-feira, Outubro 08, 2007

Canção quase póstuma

Trago a morte no peito
Enrolada em carne viva
Trago um poço cheio
De esperanças perdidas

Trago na alma a saudade
Daquilo que não viverei
Trago o desejo da idade
Que um dia nunca terei

Trago cinzas nos bolsos
E flores entre os dedos
Trago sonhos ressecos
E vozes que já não ouço

Trago inveja dos velhos
De suas dores e rugas
Trago nos olhos pregos
E na boca letras difusas



.
.
.

Somos todos manchas
Somos todos vazio

Somos todos poeira
E desprendimento

Trago cinzas no bolso
E vento no coração

As vozes que eu ouço
Me escorrem pela mão
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Terça-feira, Setembro 11, 2007

saudade
minha cidade está menor
a sua casa está vazia
a carta que queria te escrever
vai morrer sem ver o dia

mas as árvores de antes ainda estão lá
sobre as sombras sem rosto
sobre as vozes que ainda zoam
sobre as coisas que você me ensinou

as árvores ainda estão lá
sobre nós. sobre os idos.
da minha carta as linhas
vão viver sem ter sentido
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Segunda-feira, Maio 28, 2007

versos perdidos
Estrelas bóiam
numa xícara de café
A noite morreu
Num gole seco e até

Tento sorrir
Mas os dentes
Não se largam
Se esfregam
De quando em vez
E eu suspiro

É final de mês
Eu ouço um tiro
A pólvora queima
Numa imensa carreira
Ela vai explodir

Percorro com as mãos
As paredes do seu corpo
Não sei como entrar
(1999?)
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Sábado, Maio 19, 2007

devaneios de um anti-comunista
trecho da autobiografia "dener - o luxo", do estilista dener pamplona de abreu, morto em 1987, que será relançada pela cosac & naif em 2008 e foi notícia na folha desta sexta:


"Os tanques estão na rua, Dener

"Em princípios de 64 eu comecei a perceber que o país estava fervendo porque em todo lugar se falava de política. Muita gente vinha puxar conversa comigo porque sabia que eu vestia Maria Teresa Goulart. Eu achava uma graça danada de pensarem que eu jamais saberia as respostas para as perguntas que me faziam. Só comecei a ficar preocupado quando percebi que os comunistas estavam ficando fortes. Mas dois ou três uísques acabavam com qualquer preocupação.

Até que um dia eu sou acordado de madrugada, nem me lembro por quem. O mordomo chamou-me nervoso, pouco depois de eu ter adormecido. Percebi que só poderia ser revolução ou guerra, ou ninguém ousaria me chamar àquela hora. Era revolução. "Os tanques estão na rua, Dener. Parece que a revolução venceu.'

Eu fiquei no pânico mais desesperador. A primeira coisa de que me lembrei foi de uma fotografia de Pequim em que aparece todo mundo na praça vestido igualzinho. O que eu enxergava diante de mim era pior que o apocalipse. Alicia Scarpa, Elisinha Moreira Salles, todas de macacão azul, colocando rótulo em pacotes de goiabada em alguma fábrica de subúrbio. Jamais eu produziria macacões azuis para fabricação em massa. (...)

Sou tão inexperiente para esses momentos que não me passou pela cabeça esconder meus tapetes, minha prataria, meus objetos de arte. Não pensava no que eu tenho. Pensava no que eu não poderia mais fazer.

Comecei a imaginar como seria a deposição de Jango. Maria Teresa é mulher de categoria e certamente seria deposta com dignidade, fazendo alguma coisa que a marcasse. Mandei que o mordomo conseguisse ligar de qualquer maneira para o Palácio do Planalto. De repente, tinha-me vindo um pensamento negro: e se Maria Teresa, que deveria estar nervosa, não soubesse escolher o vestido certo para um momento desses. Afinal, em matéria de deposição, é raríssima uma segunda oportunidade."



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isso podia ser uma letra do eduardo dusek, autor dessa pérola:

Nostradamus

Naquela manhã
Eu acordei tarde, de bode
Com tudo que sei
Acendi uma vela
Abri a janela
E pasmei

Alguns edifícios explodiam
Pessoas corriam
Eu disse bom dia
E ignorei

Telefonei
Pr'um toque tenha qualquer
E não tinha
Ninguém respondeu
Eu disse: "Deus, Nostradamus
Forças do bem e da maldade
Vudoo, calamidade, juízo final
Então és tu?"

De repente na minha frente
A esquadria de alumínio caiu
Junto com vidro fumê
O que fazer? Tudo ruiu
Começou tudo a carcomer
Gritei, ninguém ouviu
E olha que eu ainda fiz psiu!

O dia ficou noite
O sol foi pro além
Eu preciso de alguém
Vou até a cozinha
Encontro Carlota, a cozinheira, morta
Diante do meu pé, Zé
Eu falei, eu gritei, eu implorei:
"Levanta e serve um café
Que o mundo acabou!"
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Sábado, Março 31, 2007

querido diário
(pra que não haja confusão: esse é um texto de ordem política, do campo dos ideais...)
ontem, eu reencontrei um moço que quase me fez largar todo o pouco que eu tenho para virar uma pessoa sem bem. por causa dele - e aqui ele é só uma logomarca, ironia perfeita nesse caso, mas ainda assim por causa dele - eu pensei nos remédios de que precisaria na cólica, calculei a menstruação sem absorvente, a vida sem depilação e sem banheiro com privada. não tive coragem, e ele teve - e outro amigo também teve, querido e intangível magnata - e ontem por acaso eu encontrei esse homem, e não se chama de nada mais que não seja homem alguém que se alimentou apenas de ideologia durante cinco anos, e por acaso ele me deu uma carona.

assim assim a vida vai e volta, e assim a gente se reencontra depois de quatro ou cinco anos e por nada se sente imensamente feliz. eu admirei esse homem porque ele teve a coragem que eu não tinha, e que não tenho, talvez ainda, e percebo o que a vida fez de nós. e talvez venha a admirá-lo de verdade, se tiver a chance e a evidência, ou talvez não, mas já foi valioso me reencontrar, e por isso já rio sozinha. com todas as pombas cagando ao redor, o funcionário que roubou a empresa, a fulana que deu pra impulsionar a carreira, a sicrana que foi sacaneada, o beltrano que perdeu o emprego por causa de sicrana, e com todas as pombas ainda existem alvos que não foram atingidos. são pedaços de calçada onde se pode caminhar sozinha e até acompanhada, sem medo.


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e deus, maa ngala, criador de todas as coisas, uma hora se fartou da solidão. ele queria conversar. maa ngala, então, reuniu tudo o que havia criado e de cada coisa retirou um pedaço, para fazer com cada fragmento, e uma pitada de sopro divino, o homem - a quem lhe deu seu primeiro nome, maa. e entre deus e o homem se fez a palavra. divina, claro, para aquele, mas também sacra para este, a palavra trazia consigo o ritmo, o ritmo que todo movimento possui, que toda energia em movimento detém, na sua contínua criação e recriação de todas as coisas, o tempo todo, em toda parte. o mundo é feito de palavra.
(salve a linda sabedoria africana)

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joão traiu edna,
que traiu bira,
que traiu silvio,
que traiu roberta,
que traiu chico,
que era um cachorro
e que não tinha
nada com isso...
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Segunda-feira, Março 26, 2007

assim assim

os pássaros cantam
uma canção sem vogais
dura assim
teimosa assim
como o verbo que
não quer se pôr

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mais um verão partiu
e o sol segue seco
o som roubado da web
me abafa o passaredo

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o outono tem gosto de dezembro
essas linhas não têm métrica
eu posso rimar lamento e vento
mas vai ser só uma rima
não vai ser o salvamento

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menos um sonho
um suspiro a menos
menos um sol
menos anzol
menos bemol

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mercadejar
preguicejar
amolengar
cochicho
relancear
anoitear
ensoldecer
palavras boas
do meu brasil




Na Zacumbira
(Hermeto Pascoal)

Na zacumbira tirajica da tumbara
chou carumba traqui tréque
Zipi zape profigum

/Briquixixá batunga lá
Ziriquibácatungasú
Zabumba baba béba junte
Traque trêmpe traze tum (1ª vez): //volta ao começo

/Aracubica maça dura
Zabiaraca na chatica
Tinga rabi biri bófe
Manjibum cobrocoió (2ª vez) ://



Subindo a Seba
(Hermeto Pascoal)

Télébitraque goziropéra
Mugunçurébi jovetizango
Caximboléia drafirombite
Aurinajóca tiéporengo
Vazelexipo trembebizungo
Suvinatéba lozênguezapa
Xixongrumpéba mulijatruvo
Mélébrajênca urateaba://
Bronqueiratóbe lacréiadrule
Fózitébenca chégribóroba
Pupébatente Gragrégrigrégue.
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Sábado, Março 24, 2007

Despedida
Era um espetáculo deprimente aquela mesa enorme, cheia de cadeiras vazias, reservadas para ninguém. Nenhum amigo tinha ido se despedir dele, que no dia seguinte pegaria um avião rumo a três anos de ausência.

Nenhum amigo, exceto eu. Ele se sentou ao meu lado, disse que me amava e falou mais uma porção de coisas sem parar, cuspindo entre uma frase e outra, como um cachorro babão. Ele falava e cuspia e olhava através de mim, em direção à porta da pizzaria, por onde esperava que alguém, qualquer pessoa, qualquer uma, chegasse.

- E o Rodrigo, que era muito seu amigo, você chegou a ver nessa viagem?
- Eu vi o Rodrigo duas vezes nesses vinte e cinco dias. Era pra ele estar aqui. Eu chamei ele, ele devia ter vindo, mas... mas ele não veio... eu chamei umas quinze pessoas, ninguém veio, mas, enfim, eu viajo amanhã...

Ele se atrapalhou todo com uma resposta que eu não pedi. Mas a mágoa estava na ponta da língua, amargando a boca e o espírito. Do outro lado da mesa, uma tia com a cara toda esticada me sorria bêbada, enquanto segurava uma taça de um vinho tinto caro, e a mãe e outra tia conversavam como amigas adolescentes, aos cochichos, bebendo o mesmo tinto.

Ele chamava a mãe o tempo todo, olha, mãe, pra mostrar qualquer coisa, mãe, você é linda, pra fazer um agrado, mãe, eu te amo, pra se humilhar pedindo um carinho que ela nunca deu porque não podia ou não sabia amar. E então eles brigaram. Aquele livro, aquele que ele não folheava fazia mais de dois anos, não podia ir pro lixo quando ela mudasse de casa. O livro custava cento e cinqüenta reais, não podia, não podia. Ela não podia fazer isso com ele. O pai iria salvá-lo. Ah, sim, o pai, que não estava ali, o pai, que tinha uma fábrica, o pai, que era amigo do Paulo Skaf, aquele importante empresário do mundo têxtil que tem uma assessoria de imprensa insistente e sempre consegue ser citado nos jornais. Ah, sim, o pai era tão importante...

E então toca o celular. Uma amiga se desculpa porque não pode ir, mas promete levá-lo ao aeroporto. Ele desliga satisfeito. Olha para mim, depois olha para as tias e diz, sorrindo, é uma Matarazzo. Sobrinha-bisneta-da-prima-do-conde-Matarazzo. Uma das tias se interessa e pergunta se a menina é prima de não sei qual Matarazzo. Sim, sim, claro, ela é muito chique. Novos provincianos. E ele elogia o cartão gold plus da tia esticada, que sorri com os dentes tintos.

E depois volta a me dar atenção. Mas já não temos muito o que conversar. Estamos em mundos separados. Ele, com a sua roupa de marca e seus importantes supostos amigos e eu de sandália de couro. Que vergonha. Mas ele tenta falar, e enquanto tenta ele cospe e olha através de mim, em direção à porta da pizzaria, por onde espera que alguém, qualquer pessoa, qualquer uma que eleve a audiência da mesa, chegue.

E, enfim, chega o meu alívio. Ela é simples, ela não tem jóias, é apenas uma pessoa que veio se despedir. Mas a simplicidade é aparente, ele tenta mostrar, dizendo que ela é viajada, que conhece a Europa toda. Ah, tá... Eles conversam, trocam contatos e ela elogia quando ele levanta, a pedido da mãe, e ajuda a tia esticada e bêbada a chegar ao banheiro. Eu lembro de quando pegamos ônibus e ele quis me impedir de oferecer o banco a um velhinho. Na Europa, ninguém faz isso, foi a justificativa. Pois deveriam fazer, respondi. E agora eu fico quieta. Ela parece a única pessoa dali que gosta dele com sinceridade. Não vou estragar isso. Sim, porque eu, até eu tenho minhas dúvidas sobre o que sinto. Me pergunto se não me mantenho amiga dele por pena. Não quero abandoná-lo.

Logo depois chega outra amiga, e ela é neta de austríacos, veja só, ele faz questão de dizer. A menina corrige, ela é bisneta, na verdade. Tudo bem. É um sangue europeu. A menina chega para ficar meia hora, ela não podia estar ali, mas ele a obrigou. Se ela não aparecesse, ele nunca mais falaria com ela. Isso foi um convite ou uma chantagem, eu perguntei, já sem paciência. E ele se justifica e se justifica. Claro, sempre existem as justificativas.

E enquanto ele dá atenção pra essas pessoas que mal o conhecem, a mãe me conta como ficou aliviada quando ele foi passar uns dias na casa do pai.

- Ele cansa.

Parece uma brincadeira, mas ela continua a falar. Ele estressa, ele cansa, ele fala demais, é ansioso demais, perturba demais. E ri quando o comparam a um cachorro. Adora a analogia. A mãe não vê a hora de se livrar do filho. E não é a única. A amiga austríaca que acabou de chegar vai embora. A outra, a simples, sai logo em seguida. Nós, que restamos, pagamos a conta e nos despedimos. É deprimente o espetáculo daquela mesa enorme, ladeada de pessoas vazias, vazias como ninguém. Eu sinto pena.
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Sexta-feira, Março 16, 2007

nius
a prefeitura de são paulo anuncia, nesta sexta, que o colégio são josé será tombado. tradicionalíssima instituição de ensino paulistana, o são josé fechou as portas no fim do ano passado por falta de recursos. "situada na rua da glória, no bairro da liberdade, a construção possui estilo neoclássico e foi projetada pelo arquiteto ramos de azevedo, autor também dos projetos do teatro e mercado municipal", diz a nota da prefeitura.

mas esse não é um fato isolado. outro colégio de tradição, o arquidiocesano demitiu um quinto dos seus professores recentemente. a essas informações, entregues por um profissional da área, devem se somar outras, que formam, com essa, um quadro preocupante. com poder econômico reduzido, a classe média está migrando - por necessidade e não por ideologia ou qualquer tipo de vontade própria - para as carteiras do combalido ensino público.

a uma pauperização material de parte da população, acrescenta-se um empobrecimento intelectual. porque, infelizmente, a educação do estado está longe de ser a ideal.


notícias de um futuro possível
"a segunda morte de fidel
raúl castro anuncia a abertura da economia cubana"

"bush é enforcado no iraque"
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Segunda-feira, Março 05, 2007

no vazio das horas cansadas
e então veio o cheiro da gemada, o amarelo áspero, o crocante do açúcar, uma saudade de uma tarde qualquer de 1994, da adolescência sem compromissos, sem planos nem perguntas inflamáveis. saudade de uma época em que não sonhava com pessoas cor de gorgonzola nem com viagens perdidas. e agora tudo o que queria eram os círculos negros de um vinil girando na vitrola, a velha cachorra maluca satisfeita com um afago, os antigos pequenos sonhos esmagados pelos anos, os programas inúteis da televisão vespertina.

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e agora temos cactos à janela. fragmentos de um sonho que eu procuro aos poucos construir. sim, porque é preciso um sonho. deixei todos do lado de fora, quando entrei aqui. passo o olhar além do vidro, tento achar algo na rua, mas o que vejo é refração. árvores azuis, pássaros negros, um pouco de você, um pouco de todos que amei, um pouco de mim - recortes da minha infância, rasgada aos vinte e seis anos.

e agora temos um cachorro. mais um pedaço do sonho que tentamos erguer, com cabos de aço e nervos de fé. e temos café, porque sonhos precisam de estímulo. rolo no chão de madeira, como pra checar que dali não dá mesmo pra passar. a crise dá um tempo. vai embora por alguns dias. mas depois volta, como a dizer que não vai me deixar em paz nunca mais. é uma filhadaputa.

um dos cactos está coberto de flores. a imagem é tão fantástica que me absorve, me suga os sentidos, me aguça o sono. vou voltar a dormir.

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a tristeza chega como um cachorro, cheirando e rodando em volta da carne. ela fareja brechas por onde entrar.

não sabe ainda, no seu fungar de fome, que o meu peito magoado é terra fértil pra grandes amores. e que assim seja.

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uma espada. eu sonho com uma espada bem longa, que me perfure o corpo todo, penetrando pela cabeça até virar raiz, com a seiva vermelha de fora, numa terra minha. algum freudiano pervertido pode vir com uma grande e besta teoria sobre isso...

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parafraseando debochadamente meu outro: quanto mais se afunda, mais sozinho se fica.

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e então veio o cheiro da gemada, o amarelo áspero da gemada, o crocante do açúcar da gemada...
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Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007

uma história de carnaval
"ao chegar ao local de empenho, deparamo-nos com a vítima acompanhada de seu amásio. relatou que estava caminhando com seu amásio em direção ao local onde estão hospedados, quando foi abordada por dois indivíduos que, em tom ríspido, exigiram dela seus pertences. os indivíduos proferiram os seguintes dizeres: 'vou dar pipoco'. ordenou que eles ficassem calados e tomaram os pertences somente da env 01, vítima. a env 01 relatou que foram levados os seguintes objetos: 01 bolsa de palha; aproximadamente 30 reais; 01 celular da marca nokia, o modelo a env 01 desconhecia; 01 cartão de estudante da usp; 01 cartão vale-refeição; 01 cartão unibanco; 01 câmera digital; 01 cartão de memória; 01 capa para câmera digital preta. o modelo e a marca da câmera não foram informados. foi realizado rastreamento em busca dos autores, contudo, não foram localizados, continuando a rastrear durante todo turno."
(ouro preto, 19/02/2007)


lição de casa
para pesquisar: uma amiga que viajou pela bolívia e chile ouviu de alguém, neste último país, que os índios aymaras não se misturaram muito aos brancos porque ofereciam forte resistência ao contato com o colonizador. já um amigo historiador contou que, na década de 1870, houve um genocído de índios na argentina e outros pedaços da américa do sul, o que pode explicar o tipo de relação que houve e há entre brancos e índios e a razão de eles serem - aparentemente - pouco numerosos em buenos aires. pelo google, pelo menos, é difícil chegar a uma conclusão. dá apenas para dizer, com certeza, que os índios compõem a massa falida da capital.

mais uma pista, da matéria "bolívia - a luta para ser uma nação", publicada pela revista "história viva": "porém, a exploração desses recursos não se desvinculou do padrão vigente no período colonial. exploradas por empresas diretamente ligadas a setores estrangeiros, responsáveis pela demanda desses recursos, essas atividades abasteciam uma elite demograficamente restrita e com nítida filiação étnica. a elite criolla, formada por gente nascida nas colônias e por descendentes de espanhóis, conservou a hegemonia política e econômica do país, e o conduziu a um sistema excludente, no qual a população indígena e chola (mestiços de classe média baixa) era mantida como mão-de-obra barata ou em sistemas como a pongueaje (prestação de serviços não remunerada, devida pelas comunidades indígenas aos proprietários das terras)".
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